Será Que Eu Preciso de Atendimento Psicológico?

atendimentoPelo olho mágico vi o rapaz alto, bem vestido, expressão algo desconcertada. Abri a porta, cumprimentei-o, convidei-o para entrar e se colocar à vontade. Esperei.

– Na verdade, não sei o que estou fazendo aqui… quer dizer…sei sim…só não sei se é aqui que eu deveria estar…tenho dúvidas…a fulana, que você conhece e é minha amiga, me disse que seria bom se eu pudesse consultar um psicólogo.

– Mas você parece que não está muito certo disso. O que é que está acontecendo?
Ele suspirou profundamente, revirou os olhos e começou:

– Bom, na verdade… sabe como é…essas coisas que todo mundo tem…esses probleminhas…é…não…o que está acontecendo…deixa eu falar de uma vez…é que está tudo confuso, tudo nublado. Bem… eu trabalho numa empresa há 4 anos e meio, minha função é de gerente. Há algum tempo meu nome foi cogitado para uma promoção e eu punha fé que ganharia o cargo. Porém, na hora “H”, fui preterido em favor de um outro colega, que, a meu ver, tinha menos qualificações do que eu. Meu chefe me deu um “feedback”, me disse que eu era um excelente funcionário, tinha especialização, mas precisava me instrumentalizar mais, daí me aconselhou a fazer um MBA. Muito bem, eu fui, fiz o curso e agora, novamente, fui cotado para outra promoção e, mais uma vez… ela me escapou. Dessa vez me incomodou mais porque ninguém me explicou o motivo e percebo um certo constrangimento por parte do meu chefe. Eu sou um cara que trabalha muito, demais, eu esqueço até de comer. Se precisa chegar mais cedo, eu chego, se precisa ficar até tarde, eu fico, se precisa trabalhar no fim de semana, eu trabalho. Eu nunca digo não, sou sempre disponível, dou o sangue. Não entendo porque isso aconteceu de novo.

– Talvez por isso mesmo, por causa da sua excessiva disponibilidade.
Ele me olhou de um jeito interrogativo, como se só houvesse compreendido a metade da verdade.

– E daí que estou desanimado, perdi toda a motivação. E o pior é aguentar os colegas me perguntando o que é que houve. Como eu vou responder se nem eu mesmo sei a resposta?… E tem outra coisa: tenho 38 anos, fui casado duas vezes. Ou melhor, fui casado uma vez, me separei e agora estou casado de novo, pelo menos por enquanto. Antes, fui seminarista. Estive no seminário por 2 anos até entender que não era a minha verdadeira vocação. Aí, conheci minha primeira mulher. Fiquei casado por 5 anos, só que comecei a perceber que ela estava ficando apática, não queria mais sair, viajar, parecia que não me queria por perto. Perguntei o que estava acontecendo e ela sempre com evasivas, até que não deu mais e a pressionei. Ela me disse que havia se apaixonado por outro e queria terminar o casamento. Fiquei arrasado… não entendi nada…afinal de contas, eu achava que era um bom marido. Me preocupava com ela, mandava flores, pensava sempre no seu bem estar. Na minha cabeça, se havia me casado, seria para sempre. Fiz de tudo para o casamento não acabar, até por causa da religião. Mas aí… a vida continua… Depois de um tempo, conheci essa moça, com a qual estou há 7 anos. No começo foi difícil para mim, porque eu ainda era ligado na outra e tem a coisa do casamento único, indissolúvel. Mas aí a gente acabou se dando bem, ou melhor, se dava bem. De um tempo pra cá, comecei a achá-la meio estranha, com mais ou menos os mesmos sintomas da outra. Meu alarme acendeu e eu me preparei para o pior, só que não esperava ouvir o que ela disse: “o seu problema é que você é muito bonzinho, muito solícito. Você quer tanto agradar que acaba ficando enjoativo, perde a graça, entende?” “Não, eu não entendo. Mas afinal de contas, o que é que você quer, quer que eu passe a te bater, então?” disse eu a ela. “Quero mais energia, mais emoção, não quero ficar com um sujeito que diz amém para tudo que eu falo. Já tem um tempo que venho sentindo que nossa relação não dá mais, mas fiquei com pena de você. Afinal… você é tão bonzinho.” Dá pra entender? Ela não me quer mais porque eu sou bonzinho! E acho que ela foi muito cruel comigo, precisava me falar dessa maneira?

– Você conversou com alguém sobre essas coisas, contou o que estava sentindo?

Ele deu um meio sorriso irônico:

– Conversei com a fulana, sua conhecida. Contei o que houve. Só isso. Na verdade os homens apenas relatam o que lhes acontecem, nós não falamos sobre o que estamos sentindo. Acho que não sabemos fazer isso. Mas o que mais está me intrigando é o porquê desses filmes estarem passando de novo na minha vida. Será que eu preciso de atendimento psicológico?

– Acredito que um atendimento psicológico sirva para as pessoas que estão sofrendo, não conseguem entender o porquê e se sintam sem instrumentos próprios para lidar com isso e resolver seus problemas. Você acha que se encaixa nessa situação?

– Certamente. Mas tem uma outra coisa: como eu disse antes, fui seminarista e trago comigo muitas coisas desse tempo. Eu sou católico praticante, vou à igreja e leio a Bíblia regularmente. Já dei muito duro na vida, sou de família humilde, já passei por muita coisa e consegui superar vários problemas, com a ajuda de Deus. Não consigo admitir que tenha que buscar ajuda fora da igreja. Acho que Deus tem o poder de me curar, isto é… eu não estou doente, mas através da oração, sei que Deus tem o poder de me clarear os pensamentos e me fazer achar as soluções adequadas. Será que eu preciso mesmo de atendimento psicológico?

– Se você lê a Bíblia deve saber o que está escrito em Eclesiástico 38.

Ele me olhou em silêncio, daquele jeito estranho e interrogativo. Abriu a pasta de couro e tirou de dentro a Bíblia. Leu o capítulo, deu um sorriso e disse:

– Ok, entendi. Você está querendo me dizer que os médicos são instrumentos que Deus usa para curar as pessoas?

– Não só os médicos, mas os profissionais da área de saúde, em geral. O que quero mesmo dizer é que Deus cura, sim, mas você vai ter que fazer sua parte, ajudado, óbvio, por um profissional. Pense bem: se você soubesse a exata localização de um tesouro, certamente iria até lá, cavaria a terra, se cansaria, suaria, sujaria as mãos e as unhas mas, no final, desenterraria o tesouro, não é verdade? Pois bem, o trabalho psicológico é assim: você pode viver muito melhor do que está vivendo, mas vai ter que arregaçar as mangas e botar a mão na massa. Vai ter que entender e assimilar os motivos que te levam a ser tão disponível e, com isso, acabar atraindo o desrespeito dos outros. Vai ter que falar sobre a culpa que você sente por ter se separado e casado de novo. Além do mais, quando você compartilha um problema, passa a ter meio problema. Compartilhar ajuda a aliviar a carga emocional e o sofrimento porque os vínculos de ajuda têm um poder curativo. É mais fácil superar o sofrimento através de uma relação autêntica de respeito mútuo do que sozinho. A relação terapêutica é uma relação de ajuda, de compreensão e apoio. O psicólogo é um outro, com o olhar e a perspectiva de um outro, o que ajuda o cliente a ver a sua própria vida de um modo diferente, de um ângulo que sequer havia pensado antes e nem suspeitava ser possível.

À medida que falava, fui notando seu semblante se desanuviar.

– Tem ainda a questão do tempo: se você tem uma amigdalite, toma um antibiótico por 5, 7 dias e logo passa. Aqui, porém, lidaremos com o que você tem de mais profundo, íntimo e precisamos ter uma certa delicadeza nesse tratamento. Por isso esse processo é lento, porque não lidamos com o tempo cronológico, lidamos com o SEU tempo interno. Consegui me explicar?

Ele assentiu.

– Muito bem! Então podemos marcar para a semana que vem, no mesmo horário?

– Claro, com certeza.

– Ótimo! – disse eu, já me levantando – Afinal de contas… Eclesiastes, capítulo 11, versículo 4.

Ivana Rocha

Olá! Sou Ivana Rocha, psicóloga responsável por esse site. Moro em Belo Horizonte e trabalho para o mundo, já que a internet encurta distâncias e facilita o atendimento de pessoas que, antes do advento da web, não tinham acesso a atendimento psicológico. Nesse espaço você vai encontrar textos escritos por mim e vídeos que posto no Youtube, visando estimular reflexões a respeito do cotidiano de todos nós. Também vai saber um pouco mais a respeito do meu trabalho, que desenvolvo através da orientação psicológica e de cursos via internet e de palestras e oficinas presenciais. Minha missão é essa: divulgar minha mensagem a um número cada vez maior de pessoas, para que elas possam ser replicadoras dentro do seu próprio universo e, com isso, criarmos uma corrente do bem. Navegue à vontade. A casa é sua!

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2 Comentários

  1. Marco

    Parabéns
    Mensagens lindas

    • escrita

      Obrigada, Marco.
      Continue visitando o site. Periodicamente, eu posto textos e artigos que escrevo.
      Abraços,

      Ivana

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